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A geração das "baratas"

por Luzia Pinheiro, em 05.03.09

A geração dos sobreviventes
 

A geração dos sobreviventes

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Domingo passado, deparei-me, nas "Farpas" do JN, com uma interessante entrevista da jovem cineasta Raquel Freire. Interrogada pela jornalista Helena Teixeira da Silva se confirmava a ideia de uma frase sua «querem-nos precários, descartáveis e fáceis de despedir», como destino desta geração, Raquel Freire não só confirmou, mas acrescentou: "Essa frase define a forma como o sistema nos vê. Somos uma geração de sobreviventes, estamos a ganhar um lado de baratas, que é o bicho que sobrevive a tudo: ao terrorismo, à crise, à precariedade, ao desemprego, às doenças…".

 

Na verdade, a capacidade de mutantes que as gerações jovens estão a adquirir, ao contrário, da visão negra que sobre eles muitos adultos têm, merece ser valorizada como uma qualidade acrescida. Desprotegidas (aliás, como as baratas) revestem-se de uma carapaça capaz de resistir ao vento forte que sopra, sem deixá-las pousar onde quer que seja com alguma estabilidade. Mesmo com curso, não têm emprego à vista. E muitas vezes quando o encontram é normalmente desajustado no lugar e nas tarefas para que foram preparados. Porventura, ainda longe dessa situação, em idade escolar obrigatória, desencantam-se com as contradições da vida real e a aprendizagem a que estão submetidas. Contracenam com valores morais que as gerações que as geraram tentaram incutir-lhes. Com as sensações à flor da pele, escolhem a fruição de cada momento presente, talvez sempre como o último, pois não têm garantido qual será o próximo.

 

Marcados pelo forte individualismo da civilização em que estão inseridos, apoiam-se uns nos outros, em busca de uma solidariedade necessária à sobrevivência dos seus problemas. Agarrados às teclas do telemóvel, trocam incessantemente mensagens para "matar" a solidão que não toleram, e vêem, em primeiríssima mão, as séries ou filmes que, um dia, as televisões generalistas hão-de transmitir para as gerações ainda não digitais. Olham para os políticos sem perceber por que falam tanto, em longas sessões e comícios, e por que dizem tão mal uns dos outros. E sentem com ironia o hipócrita interesse que esses, nos seus discursos, tanto apregoam por garantir-lhes o "mundo de amanhã".

 

Obviamente, estes traços que descrevo são retratos imprecisos. Não configuram o universo de toda esta geração, mas apenas alguns dos seus dispersos segmentos. Aliás, o que me traz a estas reflexões não é o sentido de assumir uma qualquer posição moralista de manifestar o medo pelo futuro destas gerações. Pelo contrário, a partir da visão da jovem cineasta Raquel Freire, provocadora e dura nas suas afirmações e na análise fria que faz à forma como o sistema vê essas tais gerações, fico com uma saudável sensação, e contente por isso: Estes mutantes não amaldiçoam a vida. Têm a noção da encruzilhada em que estão metidos. Não ignoram a situação. Mas fazem questão de sobreviver a tudo. Ou seja: com efeito, há fragmentos destas gerações que saltam para o lado desviante de comportamentos A nossa sorte social é que a grande maioria não se vê como uma geração perdida. São frios. Mas pensam. Profundamente críticos do sistema em que estão envolvidos. Se resistirem a tudo, como esperam, hão-de ultrapassar este difícil ciclo da história das gerações para refundar o Mundo com outra ordem.

 

 

 

ver aqui:

 

http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=Paquete%20de%20Oliveira

 

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publicado às 19:30



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